quinta-feira, 7 de março de 2013

O Peso das Palavras Sem Peso

Depois de um sábado mágico, com a celebração antecipada do "Natal Rubro-Negro", e a justa devolução do Galinho Zico ao Panteão dos heróis imortalizados nos corredores da Gávea, veio a ressaca da Ceia, com a derrota para os hipossuficientes de títulos de General Severiano. E como se não fosse suficiente o mal estar, cai como uma bomba o desmanche da equipe de ponta de mais dois esportes olímpicos: Judô e a Ginástica Artística.

Judô Feminino Hoje é Campeão Olímpico
Quanto ao jogo de domingo, pouco há a dizer. Repousar as causas do infortúnio nas mãos do larápio que trajava amarelo é uma atitude natural dos realizadores do mosaico azul mais perfeito do mundo. O fato é que o time jogou muito abaixo do que vinha apresentando no campeonato (obviamente me referindo às partidas contra os pseudo-grandes do estado). A postura lenta, desligada foi a tônica do primeiro tempo, como o gol relâmpago do Botafogo com menos de uma minuto simplesmente não houvesse existido. A etapa complementar reservou mais emoções, algumas boas chances de gol para ambos os lados, mágicas defesas dos goleiros e o tiro de misericórdia quando já não havia mais chances, se aproveitando do fato de que Felipe tinha subido à área para tentar salvar a Pátria. O fato é: merecemos ficar de fora mais uma vez.

Mas não existe azia que não piore com uma promoção de salgado e refresco. E é esta sensação de perda e de vazio que toma conta de mim com a notícia sobre a implosão de mais uma parte dos esportes olímpicos. Não é difícil para cada um dos leitores deste meu blog verificar nos poucos post publicados ver que aplaudi o fim da equipe competitiva da natação, assim como diversas outras medidas de austeridade que se fazem não apenas oportunas, mas indispensáveis para que o Flamengo possa trilhar o caminho de independência esportiva e financeira prometida pela atual gestão, para qual fiz campanha e ainda faço questão de apoiar.

A eleição do ano passado mostrou justamente que não se quer no comando rubro-negro pessoas com pensamento pequeno e restrito aos muros da Gávea. Mas do mesmo modo que o parquinho não é o fim em si, também não é nenhuma das outras modalidades, nem mesmo o futebol, não obstante sua posição de carro-chefe e trem pagador no atual quadro.

Quando se fala em responsabilidade e compromisso, hoje palavras de ordem no clube, fala-se em cumprir o que se promete, conquistando a confiança da pessoa com que se negocia. Não é menos verdade que a atividade de planejar em qualquer setor demanda não apenas trabalho, mas a sensibilidade de mudar o curso quando algo não dá certo ou não corresponde as expectativas, e é com base nisso, no "tentamos manter, mas não deu" que colocamos campeões mundiais no olho da rua. 

Diego mostra costume com o
velho modo se se gerir o clube 
Nem vou comentar as alegações de retaliação à Patrícia Amorim, não é o perfil desta gestão agir desta forma. Tenho a absoluta certeza que a decisão que ora combato foi tomada após reflexão técnica e atuarial e o apoio dos profissionais e atletas deste esportes à ex-presidente era mais que natural dado que a origem desta foi nos esportes amadores e que, mesmo as custas do combalido cofre do clube, tinham porto seguro em sua preparação a cada ciclo olímpico.

Contudo, acho oportuna a citação de entrevista do VP Alexandre Póvoa dada no momento em que optou-se por não renovar com o Medalha de Ouro, César Cielo e dos demais nadadores de alto rendimento:

- Hoje, infelizmente, nenhum esporte é autossustentável. Então, vamos dar um prazo de um ano para que eles tentem se tornar autossustentáveis. Mas o terceiro pré-requisito, a natação não atende hoje. E também é fato que o Flamengo não tem uma piscina para uma competição de alto nível, porque não houve reforma nos últimos anos. Por conta dessa piscina deteriorada e pela situação difícil do Flamengo, se fez a opção de trazer atletas que honraram as cores do Flamengo, mas não treinavam aqui. A nossa prioridade hoje é reconstruir o parque aquático e resolvemos priorizar o investimento na base, para quem sabe em 2014 trazer esses atletas de volta com o clube mais estruturado - afirmou o dirigente.
E o tempo mostrou que a escolha foi acertada, na medida em que a piscina olímpica (em que os astros não treinavam) foi interditada por sérios problemas estruturais, contando com vazamentos que elevavam a despesa de água a mais de R$ 500.000,00! Os salários astronômicos dos piscineiros vindos de fora, e no auge da fama, não compensavam o pouquíssimo retorno, seja em exposição da marca, seja como influência e incentivo para os mais jovens que os tinham por perto (razão também citada à época), além de compromisso com a excelência, entrando sempre para ganhar no que competir.

Dani: Decacampeã Brasileira
O judô, e principalmente a Ginástica Artística, pelo menos neste aspecto eram diferentes. Mesmo com vários atletas de ponta formados e crescidos dentro do clube, absolutamente identificados com sócios e torcedores, estas modalidades viram seu "um ano de prazo" serem reduzidos para pouco mais de dois meses. Eu me pergunto qual é o recado que está sendo dado a cada um das crianças da base -  e que no caso da ginástica já reclamavam de abandono - neste momento. Como estimular seu filho a treinar, competir e vencer pelo clube que pode os dispensar quando deixar de ser um bom negócio?

Digna de aplauso, em parte, é a colocação sobre a falta de apoio do COB e das Confederações aos clubes, vertendo seus recursos apenas para a manutenção das suas próprias estruturas. O papel dos clubes formadores é totalmente negligenciado por quem deveria fomentar o esporte. Enquanto as agremiações suportam os custos do dia-a-dia, ficam de fora do momento de glória dos mesmos atletas que ao subir ao pódio não podem ostentar outras cores que não a da seleção e da confederação. O esporte brasileiro tem que ser todo repensado, sem dúvida, e a direção pensa estar dando sua cota-parte ao repensar o Flamengo.

Mas além de estar quebrando o trato de dar tempo ao tempo, anunciado na imprensa, o Flamengo se equipara às mesmas Confederações e ao próprio COB que assistem caladas - isso quando não são agentes diretamente responsáveis -  pelos sucessivos ataques ao esporte amador brasileiro que está no mais importante dos ciclos olímpicos: aquele que será coroado com a realização dos jogos da Rio 2016. No momento em quando deveríamos estar dando suporte à preparação dos atletas de todas as modalidades, testemunhamos a implosão do Célio de Barros e do Julio Delamare, o desmonte do Velódromo, deixando desamparados ao  mesmo tempo duas modalidades (ginástica e ciclismo) e sua montagem em Goiás onde não há ciclismo de pista

Érika Miranda
Não duvido da capacidade do plano traçado render saborosos frutos no futuro com a revelação de novos talentos em um clube organizado e com as contas saneadas que saiba atrair investimentos para suas diversas categorias. Aliás, nem mesmo defendo a manutenção destas equipes a qualquer custo, na esteira da responsabilidade de marca as gestões rubro-negras desde sempre. Questiono é o descumprimento com o que tinha sido antes colocado, além do momento mais que inoportuno para esta decisão. As mesmas palmas que bati para a manutenção do basquete, impedindo a descontinuidade de patrocínio para o time que encanta a Nação, eu gostaria de bater para o uso inteligente da imagem destes campeões que recebem um "até mais ver" depois de tantos anos de devoção ao meu, ao seu e ao nosso Flamengo.

Agora é acompanhar para onde vão nossos campeões. E torcer para que eles consigam galgar os passos necessários para chegarem (ou retornarem) ao mesmo sucesso que queremos e se planeja para o nosso clube.

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