Augusto é um homem comum. Gente do povo. Nascido em bairro nobre da cidade, mas viveu sempre no meio da galera. Desde cedo se tornou popular. Era um referência onde morava. Todos sabiam quem ele era. Pessoa de hábitos simples, teve uma vida de altos e baixos. Várias vezes foi enrolado por pessoas que só queriam se dar bem em cima dele. Várias.
Crescido, passou a ter que buscar meio de ganhar seu sustento. Foi trabalhar no bar de seu pai. O point do bairro. Vivia lotado de pessoas de todas as procedências. Ricos e mendigos. Executivos e pedreiros. Os opostos se encontravam, principalmente nas tardes de domingo, dividindo copo, balcão, banheiro, emoções e experiências.Todos era iguais e tinham amplo acesso.
Nosso personagem trabalhava muito. Apesar do bar arrecadar bem, Augusto não não era assim tão bem remunerado. Ganhava o que dava. Gastava mais do que podia. Mais preocupado com os amigos e seus sorrisos, não se cuidou, não criou patrimônio, não garantiu seu futuro e se colocou a mercê das surpresas que o futur
O bar passou por várias reformas. Algumas só de fachada. Outras mais mais estruturantes. Em uma delas recebeu a notícia que ninguém gosta de ouvir: o falecimento do seu pai. Dor. Tristeza. E uma vida a ser repensada. Resolveu honrar o legado do seu pai: iria tocar o bar, agora novo em folha, com lindos telões, assentos confortáveis, banheiros limpos e um visual incrível. Imagina toda a galera entrando no dia da inauguração!
Vai chegando o novo dia e as notícias não são boas. Aberto o inventário, descobre-se que o bar não será seu, como pensava. Será de seu irmão, Adalberto, que acabava de conhecer, fruto de uma relação clandestina de seu pai. Esse novo parente, muito querido por seu pai e muito bem sucedido no ramo da construção civil era agora o novo dono e administrador do bar e que decidiu que a esquina de todos sofreria um upgrade. Para não deixar o irmão desamparado, fez um combinado, Augusto gerenciaria o bar e todo o lucro com bebida seria dele. O resto, propagandas, festas, shows, reservas de boas mesas e vagas de estacionamento ficaria com Adalberto.
Sem dinheiro e com dívidas pesadas a pagar, sem outras opções, e não querendo ficar longe dos amigos de sempre, ele aceita. Ainda assim, acha que será um bom negócio, afinal, o bar não ficava sempre cheio antes? Portas abertas, povo entrando, povo consumindo. Na hora de fechar a féria do dia, não crê nos números: como pôde ganhar tão pouco?
Fez as contas e viu que a cada quatro garrafas, uma quebrava, ou estourava, ou simplesmente saia de graça para o consumidor. Fora o desconto do estudante. Meia-entrada para beber? O que isso tinha a ver com formação acadêmica? Mas na verdade era o acesso à comida, tudo que tinha no bar era pago pela metade. Seu irmão tinha ficado com a parte boa, pensou. Partes que não sofriam com esses cortes "fora de propósito". Não tinha outra alternativa: Ou era largar o barco ou aumentar o preço da cerva.
Escolheu a segunda opção. O povo até vinha. Menos que antes. Estranhavam o novo bar, menos pé-sujo, mais restaurante. Mas vinha, e tornava possível pagar as contas. Mas muitos dos amigos passaram a reclamar. Disseram que ele mudou. Que não queria saber de povo. Do mesmo povo que tinha feito daquele bar a fonte do sustento, alegria e orgulho dele e do seu velho pai. O que fazer?
O que fazer?
Essa é a pergunta do milhão para Augusto. Não só para ele, mas para o Flamengo e sua torcida, e os clubes médios do Rio de Janeiro, para o povo da cidade, para os jornalistas, urbanistas, sociólogos e demais atores e espectadores desta novela sem fim que se tornou a discussão do novo futebol que está sendo enfiado goela abaixo nos clubes e na torcida.
Não é difícil relacionar os personagens da história acima com os atores da realidade. Reduzir a discussão ao preço do ingresso somente mostra nossa falta de percepção de tudo que há em volta. Trata-se de fechar os olhos para um modelo criado pelo Estado e imposto àqueles a quem se imputa o dever de pagar a conta sozinhos. Começa na criação de um regime canalha de gratuidades, sem limite e sem controle, para atender a interesses eleitorais e populistas, terminando com uma concessão feita sob a sombra da imoralidade onde quem explora e lucra com a o futebol são seres que nunca fizeram parte dessa equação.
Com o tempo passamos a conhecer e discutir, cheios de propriedade, acerca de temas que antes estavam restritos aos livros de marketing e finanças. Ticket médio? Camarotes Premium ou Institucionais? Reserva de ingressos ou compartilhamento de lucros? Stewards ou Comissários? Quantos blogs lemos agora e que falam cada vez menos do que rola apenas dentro das quatro linhas? Vivemos uma nova era, fruto do exercício do poder de poucos e da incompetência de muitos. Apesar dos mais de cem anos de futebol, nossos clubes vivem afogados em dívidas as quais nunca fizeram questão de pagar, sem estádios próprios onde se possam tornar viáveis, geridos ainda como grupos de pelada do Aterro onde meia dúzia tenta organizar algo enquanto uns duzentos berram a sua berram a sua volta.
Não se trata de defender os preços hoje praticados. Muito pelo contrário. EU mesmo não poderei ir sempre. Mas se o torcedor hoje paga o ingresso mais caro, os clubes pagam a conta de irresponsabilidade do passado. Com o pires na mão pagando dívidas que não fizemos. Ficando nas mãos de quem tem o poder de decidir que nós abrimos mão ao nos colocar em desvantagem tal que não conseguimos nos defender ou mesmo ao povo.
Alguém acha que a "elitização" de que se tanto reclama é algo atual? Pense como era o cinema há vinte anos atrás! As salas de rua, famosas em toda parte da cidade sucumbiram ante a sanha das igrejas e das multisalas dos shoppings, com pípocas que custam bem mais do que qualquer carrocinha na rua. Lá, como no novo estádio, há muito, ter a carteirinha faz toda a diferença. Teatros e shows seguem a mesma lógica. O próprio Maracanã começou a ser vítima da "lipoaspiração social" anos atrás, com o fim da geral ou mesmo com a redução de sua capacidade, que só aumentou a sensação de escassez.
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| Arenas entregues à Empreiteiras e Anistias aos Clubes: Como o Governo rasga o NOSSO dinheiro. |
Falando especificamente do Flamengo, acho que chegou um momento de grande desafio para clube e torcida. Depois de anos sendo pautado pelo que dá resultado imediato, sem se importar com os custos, resolveu-se planejar. Não consigo pensar o Flamengo diferente do que penso minha vida pessoal. Acho que todos deveríamos ser assim. Como comprar um carro e ficar sem ter o que comer? Como comprar roupa de marca e ficar no escuro por falta de pagamento? Como gastar com viagens enquanto há um grande vazamento que drena, literalmente, parte de seu orçamento? Como ter empregados sem poder honrar os compromissos?
Tão abjeto quanto o aumento dos ingressos é o famoso PROFORTE, ou a MP da anistia dos clubes que promete pintar a qualquer momento. Depois de décadas de irresponsabilidade, o clubes serão perdoados em Bilhões de Reais de impostos. Esmola com o dinheiro do meu, do seu, do nosso dinheiro.
Acredito que só andar mais perto da justiça quando conseguirmos nos colocar no papel de cada personagem da história que ilustra esse texto. Na torcida que se sente prejudicada e colocada para fora. No clube que, como todo superendividado em recuperação, tem que cortar nã
o apenas o supérfluo mas um pouco do essencial.
Esse duelo não pode ser um duelo. Tem que ser um casamento. Se até hoje, clube e torcida se mantiveram unidos, apesar dos pesares, por que agora seria diferente? Que seja a crise dos 117 anos! Mas no fim, todos tem que se entender e perceber para ver a luz no fim do túnel vão ter que aprender a cavar juntos. O consumidor geralmente não entende o lado do comerciante. Nem a criança birrenta entende a do seu pai que, naquele mês, não pode comprar o brinquedo da moda. A gente pode entende. Eu acho. Eu espero. Eu acredito.















